TORQUATO NETO
A dramática resistência estética em Paupéria.

Ao refazermos a trilha labiríntica de Torquato Neto em seu caminho, guiamo-nos por um fio condutor que perfaz o conjunto da obra do poeta & artista performático - o estilhaçamento e deslocamento de um “eu –sujeito” fragmentado, seja na poesia & estética artística, seja em sua vida íntima, social e política - o “anjo torto de Paupéria”.

Literato cantabile

Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam assim:
do precipício:

a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício.
e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim, a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.
Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

Você não tem que me dizer
O número do mundo deste mundo
Não tem que me mostrar
A outra face
Face ao fim de tudo

Só tem que me dizer
O nome da república ao fundo
O sim do fim
Do fim de tudo
E o tem do tempo vindo;

Não tem que me mostrar
A outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. É proibido
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento.
(NETO, Torquato. Os últimos dias de paupéria. In. Marcha à revisão. 1ªed.: perspectiva, São Paulo. Pág. 35. 1973).

Interposto às diversidades de temas, estilos e vozes que compõe a sua obra, compartilhada à vida fragmentada pela angústia e o drama existencial vivido em “Paupéria” - Torquato Neto alinha-se à linhagem dos românticos malditos. A singularidade de seus versos representa uma dramática tensão entre o eu lírico e a cultura daquela época - anos 60 e 70. Nos múltiplos tipos de atividades que participa sempre desponta como um ser mutante, envolve-se com as coisas e por elas também é envolvido.
Era no “espaço-poliédrico” & cavernoso do hospício, a cela escura daquele mundo - a loucura – a habitação daqueles que repudiavam a instituição total da linguagem contaminada pelos dos “falsos poetas e artistas”, filhos do sistema. Assim, “os lite-ratos marginais e subversivos” foram caçados e internados nas prisões e hospícios: “Os literatos foram todos para o hospício”, (NETO, Torquato. Os últimos dias de Paupéria. Org. Wally Sailormoon e Ana Maria S. de Araújo Duarte - Rio de Janeiro: Max Limonad. Pág. 97, 1973.).
“... Parto silenciosamente. Tenho saudade, como os cariocas, do dia em que sentia e achava que era dia de cego. De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim, chega!...”. (PIRES, Paulo Roberto. TORQUATÁLIA: obra reunida de Torquato Neto, Rio de Janeiro: Rocco. Pág. 404, 2004).

10 de novembro de 1972 - O Brasil perdia um de seus maiores e mais geniais poetas. Torquato Neto viveu com a mesma intensidade dos seus versos e escritos, rompeu as fronteiras entre arte e realidade, entre sujeito e objeto, sua obra é o reflexo da crise de um sujeito – não a simplória degradação, e sim a sua descentração em meio à fragmentação da identidade cultural da sociedade no capitalismo tardio”.





On November 14 2006 Edit






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