Reencontro

Os dois se encontraram na cachoeira, que desaguava num lago cristalino, a água em um leve verde-azul. O fundo era coberto por areia e pedras grandes, redondas e coloridas. Elas eram perfeitas para se quicar na água.
Ela estava com um vestido vermelho, de tecido leve, solto. Era o mesmo de anos atrás, seu favorito. Quanto mais velho, maior a sensação de liberdade e afinidade com ele. E mais bonita ela ficava. Estava sentada numa pedra grande, na beira do lago, com os pés brincando na água fria, enquanto os raios do sol tentavam alcançar seu lindo rosto, esquivando-se das folhas das árvores, que balançavam com entusiasmo.
Ele se aproximou calmamente, com uma respiração descompassada, mas tranquila. Sua feição era a mesma, apesar de mais velha. Os mesmos olhos escuros e amendoados, o mesmo nariz reto e ligeiramente empinado, a mesma sombrancelha emoldurando seus olhos. Agora, porém, seus cabelos estavam curtos, encaracolando ao redor de seu rosto, e trazia uma leve barba no rosto.
Não ficou surpreso ao vê-la. Ficou surpreso, sim, em perceber como ela continuava linda, agora ainda mais; era uma mulher. Seus cabelos pretos ainda ondulavam em suas costas. Será que os olhos eram os mesmos? Aqueles olhos azul-Luana, de céu-ao-entardecer-quando-está-meio-escuro-e-esverdeado?
Aproximou-se.
Ela se virou, com um sorriso tranquilo.
- Felipe!
Ele respondeu com um sorriso sem palavras.
- Você também veio aqui relembrar a paz imperturbável de um lugar que o tempo consome sem pressa?
- É, vim pensar na vida sem o correr do relógio, um pouco. E estou surpreso por não estar surpreso ao te ver – sorriu.
- É... É como se eu esperasse que você estivesse aqui. Você está bonito! – agora ela sorriu, aquele sorriso sereno de quem ama em paz.
- Você também, mais ainda, se é que é possível.
Ambos silenciaram por algum tempo, observando o movimento da água e seus sons.
- Por que a gente ficou todo esse tempo sem se falar, Fe? – seu olhar estava perdido no vazio de algum lugar por onde sua mente vagava.
- Não sei. Acho que a vida não permitiu. Mas, pra mim parece que todo esse tempo nos comunicamos, mas de outra forma – seus olhar também vagava, mas sem aquela melancolia aparente nos olhos de Luana – O que foi, Lu? Sua mente parece estar passeando por um lugar vazio e frio, dessa vez...
- Ela está. Mesmo aqui, nesse lugar lindo.
- O que aconteceu?
- Nada... Nada. Tudo passa, mas nada acontece.
- Umn. Entendi. Isso é uma história de amor...
- Pelo contrário, Fe! – disse ela, um tanto incomodada – Isso é uma história de não amor, de descrença, de solidão. Eu não acredito no amor... – disse sem muita convicção.
- Ah não? E nós não somos a prova da existência dele? – disse um tanto incomodado. Ele achava que essa história já havia sido superada.
- Nós fomos a prova dessa existência.
- E não somos mais? Você não me ama? Pois eu te amo, Luana – disse, com voz suave.
Ela fez um bico, encheu as bochechas, entortou a boca e por fim disse:
- Eu também te amo, Felipe... Mas, esse nosso amor é outro. Eu vou sempre te amar, você se tornou parte de mim, tanto que está aqui, agora. Mas...
- Mas nós somos grandes amigos, e você procura outro amor. Aquele, como o que tivemos.
- Mas mais maduro.
- Claro. E o que te faz pensar que nunca vai encontrar nada?
- O fato de eu não ter encontrado nada. – e arqueou a sombrancelha ironicamente.
Ele riu. – Calma, Luana. Você sabe que o tempo é sacana. Sabe o que vai te fazer bem?
- O que?
- Nadar nessa cachoeira, comigo. Vamos?
- Vamos!


On October 09 2010 Edit






vdeque

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São Paulo, São Paulo, Brazil




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