É meio da noite e, como me acontece com certa frequência, eu não dormi. Na cidade grande, naturalmente, não sou o único. Ouço barulho de carros lá embaixo. Meus olhos ultrapassam as luzes dos prédios e vejo que uma neblina vem se insinuando no horizonte ela vem se deitando sobre a cidade como um cobertor, ou como o que poderia parecer aos antigos uma misteriosa cortina por trás da qual chega o fim dos tempos; qualquer ameaça divina e peremptória que se aproxima devorando o mundo.
E eu penso no meu fotolog, penso em tirar uma foto e dizer qualquer coisa sobre isso. Eu ainda não sei o que, enquanto olho pela janela, mas a visão me fascina e traz presságio da voz das musas, busco a máquina fotográfica sabendo que algo eventualmente me ocorrerá. Passo algum tempo tentando tirar a foto. Você precisa entender que há uma jardineira na minha janela, e que depois desta jardineira há uma tela uma rede (que já foi brilhantemente descrita por alguém como uma série de buracos amarrados com corda). A bateria da minha Sony durou apenas o tempo de fazer o foco. A bateria dura pra sempre, mas leva seis horas pra carregar. Peguei minha Nikon imaginando os problemas a lente dela é grande, e não passa com facilidade pelos buracos da rede. É difícil passar os dedos pela corda pra focar se coloco no foco automático, a lente agarra nas cordas enquanto roda sozinha, o que acontece repetidamente porque o foco automático se perde entre focar o horizonte lá longe ou a rede aqui perto. Meu mini-tripé não suporta bem a câmera, que preciso operar com as mãos. Eu prendo a respiração e tento uma foto o tempo do obturador é tão vasto quanto a noite que minha paciência se esforça pra captar. Minhas mãos continuam tremendo milimetricamente e as fotos continuam a borrar. Finalmente, tiro uma foto que me parece satisfatória.
E durante todo esse tempo a paisagem não deixa de me encantar. Eu desejo por um momento que houvessem dragões do outro lado. Um oceano repleto de gigantes monstros imaginados, qualquer coisa mais majestosa e desafiante que o tédio da cidade lá embaixo. Eu olho pra ela, como quem saiu de um mundo medieval de castelos e tochas. Eu vejo os impressionantes edifícios gigantescos e lembro de seus elevadores lá dentro. Vejo todas as luzes os infinitos sóis artificiais que minúsculos ilumina tudo lá embaixo, deixando a noite com uma espectral aura de magia. O asfalto negro e uniforme refletindo molhado os postes amarelos. Ouço os carros passam. E penso que tudo aí embaixo é incrível e improvável. Que tudo poderia ser e deveria ser mais interessante e orquestrado em direção à beleza. Mas não é. Você dá às pessoas uma pedra filosofal pra cada, e metade vai usá-la para coçar o rabo. Em tantos escritórios serão peso de papel. Mas eu não quero escrever sobre isso e continuo na janela, contemplando, quando algo dentro de mim não uma voz, mas um instinto que traduzo aqui me sugere que eu pare de contemplar e sente ao computador, que a própria lógica do discurso irá criar um texto por si só coerente e pertinente ao tema.
Mas entendam, eu não queria sentar e escrever mentiras sobre olhar pela janela. Não queria descrever o que é olhar pela janela para alguém que senta e escreve sobre isso não queria apenas produzir uma mentira bonita queria olhar pela janela e depois escrever sobre o que se passou.
Então resolvi escrever sobre isso. Sobre como é difícil produzir um texto sincero, mesmo quando se tem perfeita ciência de que isso é o que você pretende fazer. Sentar e escrever sobre o mundo como quem imagina da cadeira, sem conhecê-lo é muito fácil na verdade, é o primeiro instinto. Quando você se acostuma à idéia de escrever, vai perdendo contato. O mecanismo literário toma conta, e de repente você nem deseja mais um contato profundo com o mundo. O mundo faz pouco sentido, está cheio de repetição e arbitrariedades aleatórias e absurdas. A fantasia resplandece, limpa como um cristal imaginado. Além do mais, geralmente são as ilusões de pedras que encantam as pessoas. Qualquer velho punheteiro que não come ninguém há trinta anos pode sentar e escrever um texto popular sobre o amor ser aplaudido de pé pelos macacos em meio às luzinhas brilhantes. Quando você tenta ser sincero, acaba com textos absurdos como este.
On October 30 2009
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