PÃO COM MORTADELA
Com Sacha Bali, Aline Fanju, Gustavo Nunes, Jorge Lucas, Rosanna Viegas - Direção João Fonseca
(foto: divulgação)
A economia mundial mal havia conseguido escapar do naufrágio da Crise de 1929 e, dez anos mais tarde, a humanidade despertava para uma realidade não menos aterradora: a Segunda Guerra. Além das marcas profundas, até hoje sentidas, na formação política, social e econômica mundial, esses eventos provocaram o surgimento de toda uma geração de intelectuais inconformados, que destoava do modelo oficial da cultura de seu país, exportado para o restante do mundo. Um dos movimentos mais representativos desse período foi o conhecido por “Beatnick” – uma releitura dos ideais românticos do Século XIX, com alguma dose de reflexão política: as obras de Rimbaud e Byron ganham a companhia nas prateleiras de Grinsberg e Kerouak (“On The Road” era a nova Bíblia) e o ópio sai de cena e dá lugar ao LSD. Só o vinho e a cerveja continuam parceiras fiéis dos novos românticos.
Henry Charles Bukowski nasceu na Alemanha, mas, muito cedo, foi para os Estados Unidos e testemunhou o sonho americano pela porta dos fundos. Seus escritos revelam a dura face de uma juventude sem perspectiva no desenho do “American Way of Life”, deslocada do “grande jogo”, como um touro que, atirado à arena, não encontra um toureiro com quem duelar, mas, sim, dezenas de leões famintos.
A família se resumia à mãe - tão docemente frágil quanto cumpliciosamente submissa - e ao pai - truculento e severo, que educava à base de sessões de espancamentos e muita hipocrisia. Um cenário tão pouco esperançoso, só poderia produzir um marginal ou um artista. Bukowski era uma desconcertante mistura das duas coisas. Ele não tinha pretensões artísticas, nem esperava ser reverenciado: a literatura foi a única forma que ele encontrou (além dos vícios), de exorcizar seus fantasmas.
Não se alinhava diretamente aos conceitos “beats” porque seu caminho foi trilhado de forma própria, no entanto, sem dúvida, partilhavam do mesmo espírito inconformado. Seus textos são recheados de uma cruel melancolia e uma amoralidade tão escancarada (muitas vezes beirando o grotesco), que, perto dele, Nelson Rodrigues não passa de um cândido coroinha. Mas sua obra tocou fundo no coração daquela geração e encontra ressonância até hoje, mais de 50 anos depois de sua primeira publicação.
“Pão com Mortadela” é o título do espetáculo que traz para os palcos todo esse universo do autor, tomando como ponto de partida um de seus livros mais famosos: “Misto Quente” (lançado nos anos 80). A peça nos mostra o nascimento dessa alma inquieta e contestadora, e o finaliza com surgimento do mito. Mesmo quem não tem Bukowski como livro de cabeceira (meu caso), não consegue deixar de se identificar com as angústias e desventuras de Henry Chinaski (alter-ego constante do autor), um jovem como tantos outros, cheio de energia, dúvidas e inseguranças, de espinhas no rosto, com problemas na escola e na família, hormônios a sair pelos poros, que descobre que o mundo não é exatamente um conto de fadas.
No espetáculo, dirigido por João Fonseca, o olhar apaixonado do diretor pela obra do “velho safado” (como ficou carinhosamente conhecido) fica evidente em cada marca, revelando um olhar quase complacente, seguindo um caminho mais lúdico do que dramático – tudo apoiado por uma trilha sonora envolvente e marcante (“Boulevard of Broken Dreams” não pára de soar nos seus ouvidos, horas depois do fim da peça).
Assim, o diretor torna mais palatável aquilo que, de forma realista, seria nauseante e indigestivo. Passagens bizarras e cruéis ganham toques de humor, plasticidade e leveza, e o relato amargo torna-se agridoce, como no caso das surras com que o pai freqüentemente presenteia o protagonista, mas não as faz menos comoventes. Assim como Sacha Bali está muito longe do aspecto repulsivo do autor (e de seu personagem), mas defende o papel com vitalidade contagiante.
Além dele, com poucos elementos cênicos e uma garra invejável, um elenco de mais cinco atores (Aline Fanju, Gustavo Nunes, Jorge Lucas, Rosanna Viegas) se revezam nos demais personagens, de forma tão dedicada e com tanto talento que seria impossível (senão injusto) destacar alguém individualmente. A luz de Luiz Paulo Neném e o uso acertado do figurino mais sugestivo que realista de Nello Marrese complementam bem a proposta simplificada de cenografia de Natália Lana. Tudo isso faz de “Pão com Mortadela” um depoimento vibrante de uma juventude atormentada, defendido com talento e paixão por elenco e direção, resultando num espetáculo prazeiroso e tocante.
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Neste final pretendia-se homenagear os indios e o sistema ecologico da Amazónia principalmente.
Uma doce 5ª. Feira
Abraço Amigo
Luis