Desespero.

Foi de repente: um estrondo, um tiro, uma fração de segundos. Tão rápido que ela foi incapaz de expressar alguma reação.

A explosão repentina da arma a fez piscar, seu corpo congelara na escuridão: o suor frio, o rasgo gelado do susto que atravessa o coração. Mesmo após abrir os olhos a tempo de ver o corpo dele, que tanto amava, descrever um arco gracioso no ar, parecia ainda não entender.

Era com perfeição idêntico aos seus sonhos. Os detalhes, a sensação...

Buscou o olhar dele, mas só viu o vazio em seus olhos. Então, de repente tudo fez sentido. Uma mistura de surpresa, dor, desespero e tristeza podia ser lido nos olhos daquele homem que agora permanecia jogado ao chão. Tudo estava claro, a consciência dela retornava aos poucos. Percebeu-se calma e tal descoberta foi estranha e assustadora.

Se perguntou como era possível que todos aqueles momentos maravilhosos pudessem estar ao mesmo tempo em sua mente. Estava confusa, tudo acontecera tão rápido e, ao mesmo tempo tão de vagar. Pensava em muitas coisas, mas sempre resultava numa única certeza: a de que nunca mais tornaria a ver aquele sorriso que a encantava.

Imaginou se ele sentiu a mesma dor, se teve a mesma triste certeza antes de mergulhar na escuridão. E como que em resposta, pode ver uma lagrima escorrer pelo rosto daquele homem. A ultima lagrima.

No momento seguinte, se deu conta de que o estava abraçando, não soube ao certo quando havia corrido para seu amado. O barulho do tiro ainda latejava em seus ouvidos.

Apertou seu corpo contra o dele com toda a força que seus braços podiam promover. Por um instante, pensou em largá-lo. Ocorreu-lhe que poderia o estar machucando. Soluço, lagrimas... Pela primeira vez, desejava poder machucá-lo, mas ele não podia mais sentir dor.

Teve vontade de gritar, rasgar sua garganta com o choro desesperado. Na verdade, não sabia se havia gritado ou não, estava tonta... Tudo girava... Estava em prantos abraçada ao corpo sem vida da unica pessoa que amou de verdade em toda sua vida.

Sentiu um liquido quente em seu rosto, esfregou com a mão. Não eram lagrimas, era vermelho. O sangue de seu amado. Gotas de sangue espirradas por todo o seu rosto. Olhou por um bom tempo para as próprias mãos meladas com o liquido vermelho sem esboçar reação alguma.

Não queria sair dali, queria abraçá-lo para sempre. Beijou sua boca com todo seu amor enquanto acariciava seu rosto. O beijo de despedida que lhe foi negado.

Tinha consciência de tudo. Sabia como havia acontecido, era sua culpa! Mas as imagens, as lembranças, começaram a sumir em sua cabeça. Fechou os olhos, mas não conseguiu ver em sua mente o rosto daquele homem que beijava. Não enxergava mais os momentos que passaram juntos, embora tivesse certeza de que foram reais.

Queria ir com ele, queria revê-lo, não queria ficar sozinha nesse mundo. Nada mais importava, ele era tudo que tinha.

Seu cérebro não assimilava mais suas ações. Não percebeu quando soltou aquele corpo e correu até a arma que deixara cair poucos segundos atrás. Estava decidida...

Olhou uma ultima vez para ele, fechou os olhos. A imagem daquele rosto lindo permaneceu em sua mente. Sorriu uma ultima vez.

Não ouviu barulho do tiro, nem sentiu a pancada forte da sua cabeça contra o chão. Tinha consciência de que morrera, ma como tinha consciência se estava morta? Não via nada alem do breu, não sentia mais o seu corpo. Era escuro, vazio. Um aperto no coração: saudade. Frio, tristeza... Uma certeza desesperadora de que nunca mais estaria com ele invadiu sua mente.Quis beijá-lo mais uma vez, era tarde para isso.

(...)

Ele abriu os olhos, sua visão estava embaçada... Tinha um mal pressentimento, estava angustiado, sentia uma tristeza enorme, vontade de chorar embora não soubesse o motivo. Onde estava? Se viu deitado em uma cama de hospital.

Uma silhueta de mulher se aproximou, não era sua amada. Ao pensar na namorada, a dor crescia absurdamente. Queria gritar, chorar! Se deu conta de que a dor em seu peito era real, estava ferido.

De repente se lembrou: a discussão, o tiro... Não sentia raiva dela, ainda a amava. Queria fazer as pazes, pedir perdão. Ele sempre teve certeza de que apesar das dificuldades, poderiam superar tudo juntos. Sempre teve certeza de que viveriam uma vida inteira lado a lado.

A enfermeira ouviu a voz rouca do homem ferido falhar. Aproximou-se a tempo de ouvi-lo perguntar pela mais uma vez:

– Moça... Cadê a minha namorada?

On December 12 2011 Edit






raom_sempai

male - 01/01/2012 (0 years old)
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