Ela era uma linda garota com olhos de jabuticaba e sua mãe sempre dizia que ela iria ser grande. Mamãe, mas eu já sou a mais alta da turma. Espere e verá, minha filha. E foi então que ela ouviu a canção estou a dois passos do paraíso. E transbordou de tanta felicidade. Mamãe, eu já entendi o que é ser grande. Era estar a dois passos do paraíso. E não se preocupou mais.
Não se preocupou mais porque já sabia fazer continhas. Se só faltam mais dois passos e eu só tenho dez anos o paraíso está pertinho. E resolveu brincar mais de bonecas, resolveu conversar mais na escola e sorrir discretamente para os garotos bonitos. Chegou até a fugir de casa por um dia só pra ver como é que era. Ninguém entendia porque Clarinha era uma menina tão sorridente. Clarinha, porque você está com esse sorriso tão bonito hoje? Ela sorria mais ainda e não respondia, apenas pensava. Estou a dois passos do paraíso, seus bobos!
Mas Clarinha cresceu. Agora era a senhora Clara Cristina, uma mulher corajosa, diziam, mas só ela sabia que não era sempre assim. E, por coisas comuns da vida, ela se esqueceu da canção que a fez uma criança mais feliz.
Esqueceu porque não tinha tempo, porque o seu celular tocava demais, porque haviam contas a pagar, porque os filhos davam trabalho, porque o marido só pensava no futebol, porque sua pele já não era mais de seda, porque ela não tinha tempo de ler o seu livro preferido, tampouco comprar um sapato novo.
E não foi um esquecer para disfarçar sua frustração. Simplesmente esqueceu. Esqueceu mesmo. Como um dia esqueceu a boneca no jardim da escola e nunca mais encontrou.
Nunca mais encontrou.
Nunca mais encontrou.
O paraíso.
On September 20 2009
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