Eu quero um a um com você...
Abraçou meu corpo ansioso parecendo tê-lo abraçado ontem. Blasé. Já passara-se meses e ele nem era uma saudade. Mas ali, naquela hora, tornou-se o mais esperado reencontro. Sentou, tirou o fumo do bolso, colocou na mesa junto com o telefone, cruzou as pernas e me fez perceber uma rotina nele. Era sempre assim. Cruzava as pernas, tirava o fumo do pacote, rasgava o papel pra piteira e fechava seu cigarrinho. Enquanto isso, ia me perguntando do Rio. Conversava com a sua voz que eu adoro olhando fixo no cigarro que enrolava. Enrolava, olhando para o seu processo de feitura, ouvia e falava de cabeça baixa enquanto eu desenrolava uma conversa desinteressante. Vez em quando virava minimamente a cabeça ainda baixa pra mim, só pra constar. E quando ele resolvia me dar mais que dois segundos de sua pupila, eu fugia.
(Talvez por isso até hoje eu não saiba a cor dos seus olhos. Ora tenho certeza que são verdes. Ora tenho certeza que são castanhos. Agora acho que são castanhos esverdeados e pronto.)
Eu tenho uma coisa diferente com ele. Não diria medo. Talvez um receio do que poderia causar aqui por dentro – se eu deixasse. Irresistivelmente boçal. Me olhava como quem não precisava. Fazia pouco caso. Mas queria. Eu, com toda a minha marra, retribuía em moeda igual. Mas queria.
Quem ali jogaria a toalha primeiro? Era uma disputa silenciosa e gostosa, sem na verdade, objetivo algum de ganhar. Era um querer perder inconfessável.
Falar do Rio soava como um agradecer por morar longe dos perturbadores olhos dele. E como eu falava! Rendia o assunto enquanto houvesse vazio. Preenchia o oco desconcertante. Até que todos os espaços eram ocupados, acabava a marra, amolecia o corpo, e dávamos por encerrada a batalha onde por fim, perdíamos os dois, panos dos dois, ao chão.
Derrotados, fumávamos o de depois, conversávamos qualquer coisa sem graça – fingindo não nos preocuparmos com o que viria. Blábláblá, beijotchau. Mas queríamos, de novo.
http://www.youtube.com/watch?v=Rih3Ym88jP8
On May 23 2011
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