Espelho Quebrado

[i]É anunciada a apresentação; Keila pega na mão de Cristian, ela estava chorando. Os ensaios haviam sido ótimos, não tinha do que ter medo, exceto que a escola inteira estava esperando por AQUELE show.

Quando Zolhão aponta pra subir no palco Cris puxa a moça para um canto isolado do Camarim improvisado, foi como no parquinho, somando a tensão do que iriam fazer. Quando os lábios se encontraram de novo, ele sabia que depois daquilo, ela não sairia correndo outra vez, sabia que subiriam naquele palco e devolveriam a gentileza para a professora que deixou o trio um pouco mais junto. Será que deveriam agradecê-la?

Quando Luiz finalmente encontra os dois e vê aquele abraço que já não era mais de simples amigos, ele fala gaguejando que estava na hora.

E o palco estava lá, exatamente como imaginaram... A bateria velha no fundo, os instrumentos baratos, o pedal de guitarra que acabara de ser quitado; as caixas de som emprestadas pela escola, que a professor que recebia a ‘homenagem’ tentara sabotar rasgando o pano do alto falante, sendo costurado por alunos ‘fãs’ da banda no mesmo dia. Os microfones sendo que um deles estava amarrado em um pedestal feito de madeira. Tudo pronto.

Enquanto lembrava-se do dia mais inesquecível da sua adolescência, Cristian tentava afinar a velha guitarra. Sua mãe na cozinha empenhada em fazer panquecas, o prato favorito de seu filho, ouvia aquilo como se fosse a nona sinfonia, ter de volta o filho em casa, mas não só isso, AQUELE filho que havia ido embora, era algo que nem ela conseguia explicar.

Quando chegou a melhor entonação possível do instrumento, visto que era velho, e as cordas há anos sem trocar. Começou a cantarolar a música daquele dia, sua mãe na cozinha fazia o mesmo com sons nasais, não conseguiria cantar, o largo sorriso não permitia.

Cristian não notou o momento de excitação da dona Lizandra, ele estava absorto demais em suas lembranças.

Pouca coisa lembra-se momentos antes de entrar, mas a expressão da dona Gladys era algo que valera a pena. Ela estava como se não dormisse há anos, com maquiagem mal feita e com os olhos mais vermelhos que as figuras de dragões dos livros de história.

Os três sobem ao palco, na ordem Zolhão, Keila e Cristian, os dois últimos de mãos dadas. Nos momentos de detenções leram sobre os shows no Madison Square Garden, Rock in Rio, e outros grandes festivais que costumavam juntar muita gente. E nas devidas proporções entenderam o que um artista sente em um show. O pessoal da escola que havia simpatizado com a idéia, não só alunos como professores, funcionários, pais e curiosos gritavam o nome da banda, o nome dos três... Era a ultima atração da gincana, e com certeza a mais aguardada. Cristian mal conseguia ver todo mundo sem virar o pescoço, as pernas começaram a tremer e a idéia de ‘não posso errar’ não saia da cabeça.

Quando começou a música, com uma introdução de solo de bateria, poderia ser classificado como ‘perfeita’. Os dois instrumentos elétricos de corda entraram no momento exato, na hora que deveria. Cristian iniciou a fala da letra de maneira tímida, mas quando viu a platéia cantando junto a empolgação veio na mesma proporção... Olhou para o lado, Zolhão havia subido em uma das caixas de som, logo após, pulado no palco, achou engraçado e nem lembrou que o palco não era seguro suficiente pra essas manobras rock n ‘roll. Chegando perto do Refrão, que o trio combinara uma parada pra deixar o público cantar, igualzinho como ouviram na versão ao vivo da música, a professora consegue passar por um dos homens que estava cuidando do volume dos instrumentos e microfones derrubando a mesa de som no chão a quebrando. Na verdade ninguém ouviu o que houve, o público cantou a parte combinada pelo trio, mas na hora de voltar a tocar algo estava errado, só se ouvia a bateria, Keila voltou a ficar nervosa, olhando pros dois, quando viram a dona Gladys puxar o cabelo de Cristian, os dois colegas de banda, alguns professores e mais que uma dúzia de alunos foi de encontro ao tumulto. A professora não parava de gritar coisas do tipo “-Eu vou te matar”, ou “-Eu sou a professora mais velha dessa escola”, “-Você não entra mais na minha classe”!

Logo após o ocorrido, todos estavam na delegacia contando o que houve ao delegado. Não era a primeira vez que a professora havia passado por aquele lugar, sua arrogância e presunção eram bastante conhecidas na cidade. O Delegado queria dar um fim a esse impasse há anos, e resolveu prender a professora por agressão. Todos naquele lugar ficaram felizes com a decisão, porém chateados porque não seria um castigo a altura das atrocidades cometidas pela Neandertal. Ela ficou em cela especial, por causa da idade, por ter curso superior, pelo seu ex marido já ter sido prefeito.

Mas no momento era suficiente. Todos foram liberados, exceto os menores de idade, que só sairiam dali com a presença dos pais ou responsáveis, e era onde o tormento de verdade começaria.

Continua...
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On February 05 2010 Edit






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