[i]- Podemos voltar pro parquinho? Diz ele entrelaçando os dedos com os dedos dela, fazendo parecer estarem amarrados. Quando chegaram à frente do brinquedo, não lembrou muito bem como aconteceu, quando se deu conta os lábios haviam se tocado, era molhado e diferente. Logo após que os corpos perderam o contato, a baterista saiu correndo como se havia engolido alho e precisasse vomitar.
Nessa hora o devaneio acabou e Cristian se encontrava com o Zolhão no carro. Deixou-o no seu trabalho um pouco depois de combinar um barzinho no outro dia.
Agora completamente no presente, entregou o carro na locadora e foi andando até em casa, não era relativamente longe, mas andou tão devagar que levou o resto da manhã na rua. Passou de novo no parquinho e não quis lembrar-se do passado agora, foi em casa e iria buscar algo pra fazer.
Chegando a casa, tirou a velha guitarra da parede ligou-a no velho aparelho de som. Ficou surpreso que ambos funcionavam ainda, e ainda que o som estivesse sujo, a guitarra desafinada, foi como um passe de volta a outra realidade que havia dispensado no local do primeiro beijo.
Cristian, Keila, e Zolhão se encontravam todos os dias, mas não comentavam sobre o ocorrido, estavam concentrados no festival, no que iriam tocar e côo fariam pra ensaiar mesmo com a Proibição do senhor Malta.
Enquanto isso as aulas transcorriam normalmente, ficando um pouco difícil, mas nada que viesse a assustar, Cristian continuava a trabalhar na pequena loja de instrumentos musicais da cidade, já havia feito duas vendas, consideradas naquela época, grandes. Lia todos os manuais de instruções, alguns em inglês, procurava e concentrar nas figuras. Os textos tinham a ajuda do Tio de Keila e do velho dicionário. O estudo de língua estrangeira nas escolas não era eficiente desde que o Latim foi considerado uma língua morta, e não pensou em momento algum pedir ajuda a professora.
Os três mal se olhavam, o grande fluxo de encontros para ensaiar havia desgastado a relação, não conversavam sobre outra coisa além de música, posições de acordes, bandas, instrumentos novos. Isso depois de um tempo passou a ser um verdadeiro tormento. E os ensaios passaram a diminuir de tempo, assim como de dias na semana.
Voltando ao presente enquanto Cristian Afinava a velha guitarra, sua mãe ouvia o som sujo daquele instrumento com um verdadeiro prazer e fala em voz alta: -Tenho de novo um homem em casa, meu filho tá de volta! É engraçado como algumas pessoas acostumam a conviver na presença de outra e quando elas cessam de existir por um motivo ou outro, parece que fora arrancado uma perna, ou um braço de si. Cristian entendia que sua presença acalmaria sua mãe, mas sabia que esse sentimento de posse poderia ser negativo em médio prazo. Julgou que seria prudente colocar os pingos nos is mais tarde, agora queria curtir seu velho brinquedo preferido.
Uma semana antes do festival eles mal se falavam no corredor, ainda eram celebridades escolares, havia cartazes nas paredes e uma excitação por partes dos colegas, inversamente proporcional nas aulas de geografia onde a professora dava várias indiretas o tempo todo tentando desencorajar o trio a fazer a apresentação.
O Grande dia chegou, e no presente Cristian termina o ritual de afinação do instrumento. Naquele dia haviam acordado cedo. Ainda era noite quando o tio de Keila fora com de carro buscar as coisas na casa de Cristian. Provavelmente nenhum dos três havia conseguido pregar o olho naquela noite e, as marcas desse nervosismo estavam na cara dos três.
A moça previu que tal coisa aconteceria e levou seu estojo de maquiagem para esconder as marcas de uma noite mal dormida. Convencer Zolhão que olheiras, palidez e as outras coisas que a falta de sono trazem era uma coisa ruim deu trabalho, mas pela primeira vez depois de algumas semanas, os três voltaram a fazer alguma coisa juntos, e o melhor; se divertir com isso.
A escola inteira aguardava a apresentação do trio, o nome da professora de geografia era repetido e cada apresentação, como em uma manifestação tribal, parecendo jogo de futebol. Vários números circenses haviam sido vaiados, deixaram os números musicais por ultimo. A escola inteira queria ver a banda que aprenderam a gostar por não gostar de uma professora.
O palco tinha muitos problemas. Os microfones falhavam de vez em quando, as tábuas eram mal pregadas, isso sem falar que a cortina estava rasgada. Ninguém de fato reparou nisso, estavam nervosos demais com suas limitações e medos. Medo de encarar um palco sem nem ter tocado com todos os instrumentos ao mesmo tempo. Keila mal pegara na bateria e isso assustava os três.
Poderiam jurar que havia mais gente naquele lugar que na final de um campeonato de futebol, constatou a moça depois de espiar pela cortina rasgada.
E chega a grande hora, do grande dia, do grande momento... Era a vingança da detenção pelo motivo que nem lembravam mais...
Continua...
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On December 04 2009
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