[i]Tendo a consciência que já havia acordado, mas sem abrir os olhos reparou que se encontrava coberto com sua velha manta com o desenho do Iron Man. Depois de alguns anos era plausível que os pés ficassem de fora, afinal as pessoas crescem e as roupas velhas depois de lavadas diminuem.

Sentiu o cheiro do café, de verdade, sem uma máquina grande, com alta temperatura e que tem gosto de nada. O café dos botecos da cidade grande só é comparável ao gosto ruim daquela água que servem em uma espécie de copo de barro ao mais extremo sul do país. Cultura essa roubada dos Hispânicos e agregada ao dia a dia deles.\t

Virou-se para o lado e notou que apareceu um travesseiro branco. Essas coisas não apareciam do nada, sua mãe há algumas horas já havia acordado. Ela o aguardava ao lado com uma bandeja com biscoitos caseiros, pães quentinhos com manteiga, e um copo de café com leite em uma xícara com a letra “C” escrita de maneira disforme com massa de modelar de crianças. Brinquedo esse que foi acusado de ser cancerígeno e acabou saindo do mercado, por falência.

A recepção não poderia ter sido das melhores, enquanto enchia a boca com o café, conseguindo sentir o gosto dos grãos percorrerem o caminho direto ao estômago, ouvia sua mãe falar. A senhora Lizandra não era dada a conversas amplas, sempre foi bastante reclusa e discreta, mas contava os acontecidos nas ultimas semanas, antes de seu pai morrer. Que a tal da missa de sétimo dia seria em pouco tempo.

Não se lembrava quando foi a ultima vez que havia pisado em uma igreja. Era o curso de batismo, que fizeram um pouco adiantados por conta de uma viagem que Laila faria. Não era o que poderia chamar de católico fervoroso, mas sempre respeitou sua família nesse ponto. Chegou à conclusão que acompanharia sua mãe nesse evento.

Nem reparou que ingeriu tudo que sua mãe havia trazido, ainda que não fosse mais acostumado a comer tanto de manhã, ficou com vontade de repetir.

Não era uma casa rica, com luxos, mas era confortavelmente agradável, não tinha ar condicionado nem ventiladores apesar da cidade ser extremamente quente no verão, mas tinha muitas árvores em volta, e uma grande suficiente pra cobrir uma pequena área atrás, com uma espécie de cama, feita com fios entrelaçados penduradas em dois ganchos na parede. Já dormiu várias vezes ali. A rede era o melhor lugar da casa, principalmente nos dias quentes.

Conversou qualquer coisa com sua mãe e saiu pra devolver o carro na locadora. Antes disso passou de novo pela frente do Parquinho. Tinha um mendigo deitado nele. Não pode conter a risada. Passou pela frente da casa que outrora era de Keila, ao lado a do Zolhão.

Zolhão tinha cabelo comprido, vivia cheio de correntes, brincos e acessórios de adolescentes. Mal pode reconhecê-lo quando saiu do portão. Pisou no freio com tanta força que o barulho da desaceleração chamou a atenção do homem.

Cristian ofereceu carona. Zolhão que agora atendia pelo nome de Luiz Cláudio estava a caminho do trabalho, era chefe da seção de caixas em um supermercado. A locadora ficava exatamente na frente do trabalho do baixista da banda: “alunos problemáticos da professora Gladys”. No caminho foram conversando sobre a escola, e sobre a banda.

O nome da banda surgiu quando na aula de geografia, Zolhão não aguentou a feijoada do dia anterior e sem querer soltou aquele gás proibido em elevadores. A repreendida foi na frente da turma, quando já ia descer ao nível de o castigo se tornar físico, Cristian pulou em cima da velha professora quebrando sua régua de Madeira que há anos era famosa por maltratar alunos. Prática que era crime, e já havia sido abolida das escolas há algumas décadas. A professora em questão respondia inúmeros processos por isso. Enquanto Cristian brigava com ela no chão da sala, Keila foi até a caixa de incêndio acionando-o, tocando a campainha alto suficiente pra cidade inteira ouvir, além de o sistema de segurança literalmente ‘molhar’ a escola inteira.

Os três foram suspensos, e fizeram tarefas extracurriculares. Cris e Luiz eram colegas na aula de violão. A disciplina de artes e era dividida em Música, História da arte e artesanato. Tinham a mesma idéia: Música não é tão sujo quanto ficar pintando quadros com os dedos; nem tão chato quanto ouvir que o tal Picasso só conseguiu vender um quadro depois de morto.

Em uma das longas tardes de detenção, Keila começou a batucar com duas canetas em cima de um livro e um copo de água que trouxe da cantina. Uma música famosa naquela época, Zolhão ouvindo aquilo, sem tirar o olho dos livros começou a cantarolar a mesma. Cristian ouvindo-a na rádio na noite anterior e parcialmente sabia tocá-la. Keila contou que era apaixonada pela bateria, mas seu pai não achou uma atitude muito feminina, que ela estudasse esse instrumento. Mesmo assim a moça em segredo visitava seu tio, que a ensinava a manejar as baquetas. E pra se vingar, se inscreveram na gincana com o nome de quem os colocara ali.

Continua..

On November 13 2009 Edit






anakin_

male - 20/11/1983 (28 years old)
1805 Photos
Sao Paulo, São Paulo, Brazil




Loading ...