[i]
-B..b...b...boa noite senhor, - era o porteiro, ele tinha um envelope nas mãos tocamos o interfone várias vezes ainda gaguejando um pouco parece ser importante.
Cristian agradece e se se lembra que aquele porteiro em questão só trabalha dias de semana, olha no relógio, são mais de oito horas da noite. Mas o maior susto foi quando viu o calendário do relógio que indicava que era segunda-feira. Sua mente dizia que a discussão com a Laila tinha sido há algumas horas, mas suas costas negavam, elas doíam como se tivesse ficado deitado um mês na mesma posição.
O celular comprovava que ele teve complexo de urso, o telefone também dizia que muita gente ficou o dia inteiro querendo manter contato: 298 ligações não atendidas. Isso sem falar dos SMS, que com certeza estouraram a capacidade máxima. Olhou uma por uma, anotou em um papel pra quem ligar, e o que fazer, a maioria era de parentes do interior. Tinha perdido o hábito de organizar e esquematizar as atividades. Esse pequeno serviço consumiu duas horas e meia, e quando voltou da cozinha com a aspirina e o suco de laranja. Quando depositou o copo na mesa, se lembrou que tinha recebido um envelope.
Era um telegrama; Não poderia deixar passar, e lembrou algumas piadas de carteiros e funcionários públicos, e: -quem hoje em dia envia TELEGRAMAS?! Mas quando abriu e viu do que se tratava, o chão sumiu de novo...
Lembranças de um passado bem distante, antes de ter a idéia que seria pai, antes de mudar pra cidade grande, quando ainda era o filho. Pensou naquele homem que trabalhava até tarde, que há muito tempo tinha deixado de ser um super herói pra ser alguém com defeitos; Que saia de casa antes de todos acordar; chegava depois que todos já tinham visto o filme que passa depois da novela e dormido. Na adolescência, aquele cara que mandava desligar a guitarra e dormir porque queria ver televisão, que achava que ir a shows, ter uma banda era atitude de um completo idiota e que aquilo não o levaria a nada. Que em uma ocasião foram pra delegacia por causa de uma briga, que nem lembrava mais o motivo.
Lembrou mais de coisas ruins do que boas daquele homem, que há dois dias estava morto. Seu Pai havia falecido, o telegrama era de sua mãe, que tentara falar no telefone o final de semana inteiro, que o pai havia sofrido um ataque cardíaco, e que não agüentou até chegar ao hospital.
Na hora pegou o telefone e ligou pra mãe, se sentira culpado, havia alguns meses que não ligava pra lá. Não sabia exatamente o que conversar com ela. Era incapaz de chorar, não estava feliz que tenha perdido alguém como seu pai, mas a relação dos dois não era o que se pode considerar próxima. Provavelmente o senhor Malta nem sabia qual o prato favorito de Cristian, não compareceu a sua formatura, e ficou podre de bêbado no seu casamento, fazendo a sua festa particular.
A conversa com a mãe foi absurdamente longa, levou mais de trinta minutos, talvez pouco pra saber o que acontecera e como tinha sido a convivência deles nos últimos anos, sua mãe se encontrava sozinha em casa, e resolvera visitá-la. Mas isso seria em algumas semanas; tinha faltado no trabalho, deixou várias coisas pendentes nas duas ultimas semanas e precisava dar um jeito na sua vida profissional.
Ao desligar o telefone deita na cama por alguns minutos deixando o telefone na mesa. Recebe a mensagem com o toque especial, e em menos de meio segundo já estava lendo: -Soube do seu pai, meus sentimentos. Laila. E em um acesso de raiva joga o aparelho na parede, quebrando-o em mais pedaços que uma criança saberia contar, logo depois se desequilibra e ele cai sobre uma pilha de livros que logo após se levantar rasgou-os e pedaços tão pequenos quanto os do telefone. Olha para a cama, com ainda mais raiva a vira de cabeça pra baixo derrubando todas as roupas limpas, dobradas e passadas que Laila tinha deixado antes de sair. Sobre a mesa, as canetas, lápis, papel, porta retratos, notebook foram pro chão em um movimento de arrastar os braços por sobre ela. Pegou a cadeira e jogou no quadro de tamanho médio que estava na parede com a foto dos dois na cidade mais européia, e fria do Brasil. Exausto, ele deita por cima das coisas. Ouviu a voz de o seu pai dizer que ele não era forte suficiente pra viver longe da mamãezinha, que não seria o homem que imaginava ser, que... Que... Que morreria sozinho...
Engolindo a seco a ultima frase vai até o banheiro lavar seu rosto, havia sangrado pelo nariz com a força pra levantar a cadeira de escritório pra lá de pesada. Quando se olha outra vez naquele que havia sido um morador incômodo naquele apartamento. A imagem não acompanhava os movimentos do corpo, parecia cinquenta anos mais velho, com a cara suja de uma barba que há cinco dias não havia tido contato com o fio de uma navalha.
Foi quando a imagem disse, olhando dentro dos olhos de Cristian: -VOCÊ VAI MORRER SÓZINHO! E cada pedaço do que restava do espelho cai sobre a pia.
Continua...
[/i]
On October 09 2009
Edit