[i][e-mail]

Cris boa noite.

Esse é a mensagem mais difícil que eu vou escrever em toda a minha vida, mais difícil depois que você voltou pra minha vida dessa forma.

Não queria admitir para mim mesma que todos os dias eu torço para ter uma mensagem sua na minha caixa de e-mail, olho para o telefone na hora que você ligou daquela vez. Confesso que tenho sido vaga e distante nos e-mails que trocamos ultimamente, já vou explicar o motivo.

Já disse o porquê nos separamos e não gostaria de tocar nesse assunto outra vez. Os meus dias ficaram mais fáceis sabendo que vou chegar em casa e ter uma mensagem sua, nem sempre isso acontece, mas essa ansiedade faz eu procurar mais coisas para fazer e o dia passa mais rápido. Teve uma época da minha vida que o ponto alto do meu dia era ouvir sua voz pouco antes de dormir, primeiro ao telefone, depois do meu lado com direito a ‘beijo de boa noite’. Essa ‘vontade de você’ voltou com força nos últimos meses, e isso me deixa preocupada, não sei como anda sua vida, você não cita a presença de outras pessoas nas suas mensagens, mas na minha existe alguém, que me ajudou a segurar a barra e eu sinto que estou o traindo.

Gostaria que você soubesse que não vou parar de te escrever, apesar de tudo... Você mexeu comigo, de novo. Só gostaria que soubesse.

Boa noite

P.s: Quando vamos nos ver outra vez para colocar a conversa [real e não virtual] em dia?

[fim do e-mail]


Talvez Cristian não tenha entendido o e-mail, ele não era associado ao título, só um desabafo de algo um tanto quanto óbvio. Mas foi uma mensagem um pouco menos fria que as anteriores. Isso já era um grande progresso.

Ficou com o título da mensagem na cabeça o resto da noite, mas abriu outros sites de notícias, procurou uma meia dúzia de piadas e quadrinhos a fim de se divertir um pouco em uma quinta chuvosa, pediu uma pizza pelo telefone: Metade atum [a preferida de Laila] e metade Calabresa com bacon [a sua preferida].

Respondeu alguns e-mails de correntes do tipo ‘-já esteve na África?’, ou ‘-mensagens do Dalai Lama de Paz’, viu pela milésima vez a mensagem da menina que havia sido queimada por um acidente e que um famoso provedor de internet iria dar cinco centavos a cada e-mail recebido. Perguntou-se como alguém em sã consciência conseguia acreditar naquele absurdo? Aí lembrou que foram mais de dez vezes que vira aquele e-mail na sua caixa, e chegou a conclusão que a maioria dos usuários de internet realmente tem um parafuso a menos.

Depois foi a vez do comunicador instantâneo, uma boa invenção para dinamizar o envio de mensagens e sair um pouco da frieza dos e-mails. Tinha a maioria das pessoas da sua família em sua lista, além de Laila, uma meia dúzia de amigos e conhecidos. Uma menina, não mais que quinze anos, que exibia com orgulho um par de seios fartos e falava igual a um russo recém alfabetizado em português.

É estranho que muitas pessoas passam horas na frente do computador usando isso as vezes como única forma de comunicação com o mundo fora do seu quarto.

Cristian ficou analisando os nomes, frases, foto dos “amigos” [ótima forma de chamar os usuários] enquanto a pizza estava a caminho. Frases como “Miltinho, vai ter volta...”! Ou “-Não trate como prioridade quem te trata como opção” ou ainda “-Gostosa sim e daí? Não é pro seu bico”! Essa última tinha uma história no mínimo inusitada, era a gordinha, chata e burra da escola, que depois que cresceu e ganhou um belo corpo graças a inúmeros remédios, tratamentos, horas e horas em salas de musculação a deixaram arrogante e presunçosa. Não sabia falar de outra coisa além de dietas, pratos com pouquíssimas calorias, exercícios e roupas caras. Sua ultima aquisição era um belo par de peitos pagos em vinte e quatro vezes no cartão de crédito, que a deixavam com a aparência de uma atriz pornô de quinta categoria.

Assim que a portaria acusou a chegada do entregador de pizza, não poderia deixar passar a piada comparando o moto-boy com um ginecologista, o mesmo disse que já ouviu essa piada infame muitas vezes. Cristian deixou uma gorjeta e subiu. Antes disso, como manda a educação ofereceu pedaços da pizza aos porteiros que ficariam a noite, mas como sempre os mesmos recusaram. Deve haver regras que impedem eles aceitar gentilezas dos condôminos. Ou simplesmente não gostam de pizza.

Comeu um pedaço de cada sabor antes de desligar o computador e se ir pro seu quarto. Quando deitou na cama pensou em pegar o telefone e ligar pra desejar boa noite a única pessoa que tinha na cabeça nos últimos anos, a campainha do seu apartamento toca, ao abrir a porta, aquela imagem perturbadora e familiar com um sorriso largo pergunta:

-Olá Cris, posso entrar?

Continua...
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On August 28 2009 Edit






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