Espelho Quebrado

[i]- Alô – respondeu a voz do outro lado

- Oi, não sei se deveria ter ligado... Eu só... Não sei, espero que me desculpe... – se perdeu em meio às palavras, nervoso quase que apavorado, já havia passado um ano desde a última vez que se falaram.

- Olá Cris, você ta bem?Falando com uma serenidade quase angelical

- to sim, quer dizer... –pensou se deveria de novo dividir o que poderia chamar de problemas outra vez com Laila, achou melhor não – vou levando, e por aí, como andam as coisas? Falou ainda com as mãos e pernas tremendo.

- Vou bem, consegui outro trabalho, to estudando e voltei a fazer aulas de violão.

Lembrou-se da primeira visão que teve da moça do outro lado da linha, o símbolo mais do que universal da música desenhado no seu lugar mais sensível.

- Que legal, espero que esteja gostando, eu também gostaria de voltar, mas a empresa tem me tirado todo o tempo livre... – e a conversa transcorreu por mais alguns minutos e quando os dois lados ficaram em silêncio, Cristian quebra a quietude e desabafa:

- Laila, me promete uma coisa? – depois de ter ouvido um consentimento ele continua – quando se lembrar de mim, e da gente... Por favor, pense nas coisas bacanas e bonitas que passamos?

- Claro – e com um respirar alto ela continua – eu peço a mesma coisa para você. – Desligando o telefone.

Não demorou muito pra dormir, quando acordou no sábado era outro homem. Tinha sido a melhor noite se sono dos últimos meses. Conseguiu dormir, descansar, e finalmente colocar a cabeça no lugar; Algumas coisas precisavam ser mudadas e depressa.

Entre outras coisas resolveu mudar o seu ritual diário de acordar, principalmente aos sábados. Colocou uma roupa leve, calçou o tênis e foi andar no parque, só pelo simples prazer de sentir as pernas empurrarem o chão, saber que está de pé, ter certeza que está vivo, respirando. Desejou um bom dia mais do que sincero a duas senhoras de idade que esbanjavam um sorriso ainda mais reluzente que o próprio sol. O dia estava quente, parou em um quiosque para beber algo, pediu água. Sentiu cada gota do líquido passar suavemente pela sua garganta, deixando o interior do seu corpo frio. Voltou a andar, agora tendo como destino sua casa.

Ao chegar ao apartamento, teve vontade de cozinhar; Colocou a música com um volume um pouco elevado para o limite aceitável de um apartamento e ainda assim cantava junto ainda mais alto. Pensou em fazer uma viagem no final do ano, talvez visitar Alex em Portugal. Poderia ser... Decidiu comprar um presente para sua secretária, pela confiança que um dia as coisas melhorariam.

Já eram duas horas da tarde e ainda se encontrava cortando o tomate, colocando óleo na panela. Chamaria alguém para jantar? Talvez. Já estava satisfeito com as ‘beliscadas’ nos ingredientes e estava fazendo para levar até o fim aquilo que aprendera com sua mãe pouco antes de sair de casa. Sentiu as mãos cobrir as suas na hora de cortar a cebola, ensinando como se deve fazer, os olhos se encherem de lágrima, seria por efeito daquele ingrediente?

Desde o natal do ano passado não visitava seus pais, a ultima vez ainda encontrava-se com a mulher do telefonema de ontem. Parou para pensar como uma ligação, uma voz, um minutinho de atenção poderiam mudar completamente a postura em relação às coisas. Poderia ter de volta aquela relação bacana? Isso pensaria em outra hora.

Continua...
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On June 26 2009 Edit






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