Espelho Quebrado
[i]Puxou o cobertor a fim de aquecer seu corpo, já fazia frio, as janelas estavam abertas, mas não se deu o trabalho de fechá-las. O sono logo o venceu e com ele uma imagem familiar, tão nítida quanto falsa: fazia sol, podia sentir o cheiro do churrasco, as pessoas estavam sorrindo, de repente ouve um barulho de tiro, corre em direção a um dos quartos, e vê sua mãe segurando uma arma, depois de dispará-la em seu pai, deitado na cama, ensanguentado e com os olhos abertos, vislumbrando a porta, ou quem quer que possa aparecer por ali. Quando volta a olhar para a mulher com a arma na mão, apontando a arma para sua própria cabeça, e na hora do disparo... Desperta, suado, mas com frio, com medo, mas aliviado; Já havia perdido as contas de quantas vezes teve aquele pesadelo, ainda que nunca tenha acontecido realmente, ele era muito constante. Ficou feliz em ter acordado... Jogou as cobertas para o lado e foi na cozinha buscar algo para beber.
Passou pelo banheiro e cuidou de fechar bem a porta, havia quebrado o espelho em um acidente doméstico há um mês, há muito tempo que não estava feliz com sua aparência, fugia de fotos e filmagens, e reproduzida por um espelho partido deixava ainda mais desfigurada para não dizer feia. Pegou na geladeira um pouco de suco que ainda sobrara e levou para o quarto. Bebeu dois ou três goles no caminho, passando outra vez certificando-se que a porta havia sido devidamente fechada.
Deitou outra vez na cama, de casal, comprada para dividir com alguém, mas encontrava-se vazia, se perdeu em pensamentos do passado. Na quinta série do ensino fundamento havia entrado algumas matérias novas no currículo escolar, entre elas história; A primeira frase do livro era: -O passado diz quem somos hoje! Não deixava de ter razão. Ligou a TV. Passando os canais, nada de interessante. Tinha certeza que não conseguiria dormir de novo, já eram 5 da manhã, ainda estava escuro. Desligou a televisão e pegou um livro no criado mudo ao lado da cama. Era o livro preferido de nove entre dez pessoas com insônia, não por ser chato e fazê-los voltarem ao sono, mas por ser envolvente.
O dia raiou sem ele notar, e o celular despertou como todos os dias da semana.
E de novo o ritual rotineiro diário. Banho, roupas, caminhada, padaria, trabalho. E foi assim em todos os dias da semana. Não esqueceu as caixas de objetos para doações. Recebeu uma carta oficial da escola agradecendo-o pela gentileza. Colocou a mesma em uma gaveta, ignorando o ato de gratidão da pessoa que reconheceu seu gesto.
E de novo era sexta, convites pra sair em e-mail, SMS, ligações, basicamente todas as ferramentas modernas de comunicação haviam sido usadas. Os convites foram todos negados com um simples -Não, obrigado ou simplesmente ignorados. Havia perdido a humanidade? Se tornado uma máquina? Nunca havia pensado nisso.
Ao chegar a casa, de novo aquela visão desértica, decidiu que precisava fazer algo para mudar isso: Comprar um gato? Péssima idéia, ele poderia almoçar o Ludi; um cachorro? O Peixinho poderia ficar com ciúmes e depressivo. Sua secretária já o alertou a procurar ajuda, pois poderia estar com depressão, mas isso foi há algum tempo. Hoje a doença chama-se indiferença.
Algumas pessoas simplesmente não se importam muito como fato de estarmos com frio (não a sensação térmica da falta de calor, o frio propriamente dito), carentes de companhia, cansados, com fome, com sono... Gente que precisa se vestir atrás de um belo paletó, se esconder atrás de uma mesa, colocar a foto da família ao lado dos relatórios, sendo que em noventa e nove por cento a sua atenção está voltado para os impressos, e aquele jogo de futebol do filho mais novo, ele perdeu, em nome do melhor desempenho econômico e financeiro de onde trabalha. A falta de humanidade estava presente em cada segundo do seu dia.
Aniversário é dia de mandar e-mail e não encaminhar pra uma lista gigantesca, a hora do almoço serve como único momento efetivamente vago no dia. Domingos são feitos para não fazer nada. E daí para pior.
O não se importar é a pior doença da humanidade, pior que a AIDS, o Câncer. Cristian pensava nisso como um crime, por isso buscou se isolar do resto do mundo. Não queria dividir de novo sua vida, seus segredos, seus pensamentos e medos com alguém que no dia seguinte partiria para outra cidade sem ao menos deixar um bilhete escrito adeus.
Colocando a cabeça em ordem, já deitado na sua cama, se perguntou o porquê o lado direito dela sempre estava intocado, liso, como se houvesse uma linha imaginária na metade do leito e que seu corpo não pudesse transpor.
Correu na sala, pegou o celular em cima da mesa... Não precisava olhar no caderno, já havia decorado aquele telefone há anos. Depois de quatro toques uma voz de mulher, aveludada e irritantemente familiar responde: -Alô!
Continua...
[/i]
On June 05 2009
Edit