Espelho Quebrado
[i]Depois de presenciar suas coisas desimportantes virarem cinza, retornou ao apartamento, fazia muito frio naquela hora, e a noite já estava dando o ar da graça. Tinha se convencido a terminar o trabalho naquele domingo. Ao abrir a porta viu que realmente o montante havia diminuído, mas ainda suficiente para levar o resto da noite. Não fazia diferença, o telefone não iria tocar de qualquer jeito mesmo.
Dada a organização dos pertences guardados foi à vez das coisas que poderiam ser úteis para outras pessoas como as apostilas de vestibular e concursos, não tinham muito a lembrar, pegou uma caixa e agrupou os impressos de maneira que coubessem todos em um único recipiente. Lembrou de dar comida ao Ludi, o peixinho estava quieto nos últimos dias, normalmente ele nadava de um lado pro outro, além de fazer muitas bolhas. Pegou na cozinha um pote com a ração e despejou no aquário. Pensou em perguntar se estava tudo bem... Mas já seria loucura. Ou talvez o peixe fosse responder?
O apartamento parecia maior a noite, por ser em um local alto, era bem calmo e silencioso, e essa ausência de sons era mais do que assustadora. Colocou um filme no DVD, lembrou que tinha alguns aparelhos eletrônicos que há pouco mais de um ano nem colocara na tomada. E voltou ao que seria a pior parte da empreitada.
Antes disso viu o caderno em cima do sofá: -para quem eu ligo primeiro?! Pensou. - para o amor da sua vida, ou para o melhor amigo nos tempos de escola? Ficou com a segunda opção, pegou o telefone celular e discou os números; tocou por cinco vezes e logo após uma voz feminina atendeu:
-Alô! Disse a voz do outro lado
-Oi, boa noite, por favor, eu poderia falar com o Alex?! Respondeu pensando se tratar da sua esposa.
-Quem deseja? falando como uma secretária executiva.
-então, meu nome é Cristian, Alex e eu estudamos juntos no colegial! Com absoluta sinceridade.
-Ah, boa noite Cristian, Alex falava muito de você. Ele esta morando em Lisboa há cinco anos, e não estamos mais casados!
-ah ta. Desculpa incomodar, boa noite! pensou em pegar algum outro contato como o telefone de Portugal ou o e-mail, mas não achou prudente uma vez que ela disse com todas as letras que não estavam mais casados.
Desligou o telefone e ignorou o caderno com o outro nome, e voltou ao centro da sala. Tinha lido uma vez em um pára-choque de caminhão, nos que ainda colocavam frases inteligentes: O passado não volta mais, por isso andamos para frente! Ouvia o barulho da televisão, já havia visto aquele filme tantas vezes que sabia inclusive os detalhes da gravação, mas era menos assustador o domingo à noite com a sala um pouco iluminada.
Começou a separar; fotos para um lado, cartas, bilhetes, coisas escritas a mão, livros pra outro, miniaturas, CDs, DVDs, presentes, um perfume que estava ali há tanto tempo que não tinha coragem de abrir para não inundar o apartamento com um cheiro insuportável, como se já não estivesse complicado permanecer ali. Não tinha muito cuidado com as coisas, não queria perder muito tempo, já estava escuro lá fora, e não queria passar a madrugada inteira acordado. Eram tantas coisas; Pequenos presentes, lembranças de aniversário, de lugares, de amigos. Achou um frasco com o seu dente de leite, pensou que já acreditou na fada do dente. Um chaveiro do seu time de futebol do coração, um cordão escrito eu te amo. Nisso ele olha para o caderno; Havia ganhado daquela pessoa cujo nome estava escrito. Levantou e deixou o cordão junto com o que escreveu no papel, já era tarde e provavelmente não estaria disponível para atender ao telefone naquela hora. Custaria tentar? O que perderia? Achou melhor deixar pra outra ocasião.
Foto da formatura, do time de futebol, da banda de garagem, de amigos na escola, da família, pessoas que já estavam mortas, pessoas que estão vivas, pessoas que não sabia se estariam vivas ou se já morreram. Fotos de mulheres, algumas fizeram parte da sua vida como namoradas outras não. E de novo a imagem da mulher que ficou mais perto de dividir a vida. Olha para o caderno e cordão, e pensa: -Três é demais!
Consulta sua conta parcial de telefone na internet para ver se pode se pré-dispor a pagar por uma ligação, não que ela fosse se estender muito, mas seria de longa distância. As contas já estavam chegando e não tinha certeza se todas caberiam no bolso. Lembrou que e-mails, recados, e até cartas, ficaram sem respostas, e pensou se o contato seria a melhor escolha. Sentia saudades, queria ouvir uma voz familiar, mas tinha medo. E não ligou.
Colocou as fotos em uma caixa, os recortes de jornal em outra, as miniaturas sobre a escrivaninha que outrora era seu escritório. O que sobrou organizou metodicamente em outras caixas. Já era meia noite, mas não estava com sono.
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On May 22 2009
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