Espelho Quebrado
[i]E finalmente acorda em um domingo nublado, olha no relógio são oito horas, lembra que não há ninguém para visitar sua única companhia era Ludi o peixinho no aquário, mesmo sabendo que peixes não fecham os olhos imaginou que ele também estaria dormindo e não quis incomodar. Cogita a idéia de ir andar um pouco, mas e depois? Vira-se pro outro lado e tenta esquecer o que vira essa noite em seu sonho, e voltar a dormir.
Uma hora depois e sem sucesso, liga o notebook na rede mundial de computadores mais por hábito do que para algo realmente útil. No seu e-mail várias propagandas, correntes, vídeos da menina que foi esfaqueada no salão de beleza pela depiladora que se achava feia, tinha uma receita infalível de como trazer a mulher amada de volta, esse em questão apagou sem ao menos abrir, ela não voltaria mais... Colocou o computador de lado e foi tomar banho. Ele poderia durar duas, três, dez horas que não faria diferença nenhuma, não teria ninguém para recriminá-lo agora. Depois de longos dez minutos já estava vestido e pronto pra sair.
Tinha recebido um panfleto de uma velhinha que mal conseguia ficar de pé, dessas empresas que não tem a mínima noção ética e para fugir da multa do governo que impõe que haja trabalhadores idosos, deficientes, negros, gringos etc. Sobre um restaurante novo que tinha aberto nos arredores com promoções, cardápio interativo e atendimento classe A. Já tinha experimentado todos e foi até lá conferir.
O atendimento não era classe A, talvez Y, mas o gosto da comida estava razoavelmente bom, viu que tinha algumas coisas familiares no cardápio, entre elas arroz a grega, feijão preto, bolo de carne e macarrão. Algumas dessas coisas traziam ótimas recordações, por um breve segundo soltou de maneira tímida um sorriso, que logo passou ao ver o valor da conta, um pouco maior que imaginou.
Passou em uma loja que estava fechada vendo o preço do presente que tinha ganhado no natal passado. Era um pouco salgado para o bolso da pessoa que o presenteou, queria ter retribuído a gentileza, mas algo deu errado. Espantou as lembranças e voltou logo para casa.
Ao entrar no apartamento, constatou que ele precisava de uma organização, para não dizer limpeza, urgente. Sabia que ao fazer isso estaria entrando em um mundo que não o pertencia mais, com fotos, lembranças, objetos, cartas e tantas outras coisas que talvez não estivesse na hora tocar. Mas esbarrar em um tênis na porta era algo inconcebível segundo a sua mãe. Trocou de roupas e abriu todos os armários, todas as gavetas, todas as bolsas tudo que estava guardado e literalmente jogou no meio da sala, sem nenhum cuidado com o que pudesse vir a quebrar ou estragar. Trouxe uma garrafa com água, pois sabia que aquilo iria levar o resto do seu domingo.
Em cima do montante de coisas tinha um CD, com o seu nome e com um símbolo da clave de sol. Era uma gravação de um show da sua antiga banda em um barzinho na cidade do interior onde havia sido criado. Não tinha muita gente, mas o grupo estava tocando como se estivesse em um estádio de futebol completamente lotado. Algumas dessas músicas tocaram na rádio local na época o que fez muita gente da platéia cantar junto. Parou por um breve momento e pensou em voz alta: -CD, Rádio, guitarra, alguém ainda tem essas coisas?. Deixou rodando a mídia e decretou que em um canto seriam colocadas as coisas para serem queimadas, esquecidas, incineradas, como se fosse possível apagá-las da mente. No outro lado da sala os objetos que iriam ser doados, como brinquedos, livros, apostilas de cursos, roupas usadas entre outras coisas.
Começou a classificar o que havia no meio da sala: o que vou queimar o que vou guardar e o que vou me livrar pensou ele. Enquanto ouvia uma das músicas, lembrou que ele havia escrito para quem o fazia bem. Nunca antes tinha colocado suas idéias em papel para determinar ou quantificar o que sentia quando estava perto de alguém. Na hora que a música acabou olha para o telefone móvel em cima do sofá e pensa se deveria ligar para a musa inspiradora da canção; achou melhor deixar isso pra outro dia.
Continuou a separar as coisas, dividir, lembrar, cada objeto trazia consigo uma história, cada pedaço de papel tinha um significado; Viu em um deles um pedaço de papel, com um telefone, tão fácil de gravar que se perguntou por que aquilo havia sido anotado. Mas por via das dúvidas salvou na memória do seu celular. Era o telefone de um amigo, que havia se mudado há alguns anos para outra cidade, pois havia passado em um concurso do governo, a ultima coisa que se lembrara dele era que tinha casado com uma mulher da nova cidade, cogitou a idéia de ligar pra ele para saber como estavam as coisas, se já chegara o herdeiro, se estava precisando de ajuda. Pegou um caderno e em uma folha branca escreveu em cima em letras garrafais: Ligar hoje; anotou os nomes: Laila e Alex, deixando espaço abaixo caso aparecesse mais alguém que valesse a pena dar sinal de vida.
[/i]
On May 15 2009
Edit